sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Cidade Invisível e o Encantamento com a Mitologia Brasileira na Netflix

Como um Boto cor-de-rosa, originário das águas doces da Amazônia, aparece morto numa praia carioca? A investigação sobre o acontecimento abre as portas para o realismo fantástico da mitologia brasileira, envolvendo a Cuca, o Curupira, a Iara, o Saci e o próprio Boto, entre outros, num enredo maravilhoso e divertido na nova série nacional da Netflix, Cidade Invisível. 


O que eu mais gostei na série foi a fuga do lugar-comum da luta dicotômica entre o bem e o mal e a capacidade de nos fazer esquecer por algum momento dos mitos nórdicos e nos reencantarmos com os seres fantásticos da brasilidade tropical. Nela, as entidades ou "encantados" são conectadas com fenômenos ou esferas da natureza, como a Iara que é um ser das águas profundas, ou o Curupira que é o protetor da floresta, mas também são produtos e expressam a dor dos dilemas humanos. O bem e o mal são conectados de forma dialética na trama que se inicia com o conflito entre uma grande construtora e uma comunidade rural de remanescente da Mata Atlântica no Rio de Janeiro, avançando para uma relação dialética entre o real e o fantasioso, o natural e o sobrenatural, ao apresentar uma área de invasão urbana onde essas entidades e pessoas pobres e vulneráveis convivem nos arredores da Lapa e de Santa Teresa, no mesmo Rio de janeiro. 

Não sei se a segunda temporada seguirá com o mesmo ritmo na narrativa, mas certamente vale a pena acompanhar a performance do experiente José Dumont, do cada vez mais encantador Marcos Pigosi, da sempre poderosa Alessandra Negrini, do Fábio Lago merecedor de um Oscar como o Curupira, da belíssima Iara, Jéssica Cores e do gracioso Saci, Wesley Guimarães. A história segue a linha narrativa do filme "João e Maria: Caçadores de Bruxas", com a resignificação dos mitos, das lendas e dos folclores, para uma versão adulta mais 'picante', digamos assim, ou mais fiel aos seus propósitos originários, diriam os estudiosos das histórias infantis. 

O fato é que é uma delícia apreciar uma produção tão bem feita, com uma narrativa que aponta a relação entre o avanço da urbanização e da especulação imobiliária que promovem cada vez mais destruição ambiental, com a mortandade dos animais, as queimadas e o destamento, reproduzindo o dilema faustiano do processo civilizatório que quanto mais avança deixa um rastro de destruição e sufocamento da memória, do senso coletivo de solidariedade e da ética do cuidado. 

A série só ficou a dever uma trilha sonora a altura, que assim como resgatou os personagens mágicos, não do nosso folclore, mas da nossa mitologia, como diria Boff, resgate a musicalidade que acompanhou e embalou os sonhos de tantas infâncias no Sítio do Picapau Amarelo, que obviamente não poderia deixar de ser lembrado. Vale a pena assistir. Parabéns Netflix, estou roendo as unhas pela segunda temporada. Parabéns aos cariocas, que se descobriram, tal qual nós aqui da Amazônia, como seres das florestas, mesmo vivendo entre as pedras e os cimentos. 

Fidelis Paixão 

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quarta-feira, 1 de maio de 2019

O SENTIDO ESPIRITUAL DO 1º DE MAIO

Ele defendeu a causa do pobre e do necessitado, e, assim, tudo corria bem. Não é isso que significa conhecer-me? Declara o Senhor.” Jeremias 22:16


Não há como ser cristão e compreender biblicamente a mensagem do evangelho sem participar ativamente das lutas dos trabalhadores em defesa dos seus direitos, por vários motivos que passo a resumir em três aspectos principais:

Primeiro, as trabalhadoras e os trabalhadores dependem da sua força de trabalho para sobreviver, é do seu labor que adquirem sustento, seja em forma de salário ou de renda; em sua relação com o mundo corporativo, patronal, são a parte frágil e que pode, a qualquer momento, ser debilitada, quem já foi ameaçado de demissão ou, simplesmente, demitido, sabe na própria pele como é angustiante essa fragilidade, especialmente no contexto de um país com altas taxas de desemprego e subemprego.

Ao ser perguntado se era o Messias que haveria de vir, Jesus respondeu: “os cegos veem, e os coxos andam; os leprosos são purificados, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho” (Mateus 11:5). Ao apresentar os pobres como destinatários de sua mensagem messiânica, Jesus deixou claro (e fez isso em diversas ocasiões) que o evangelho tem lado, tem opção: os fragilizados.

Segundo, a igreja primitiva, aquela de Atos dos Apóstolos, era formada basicamente por setores populares da sociedade, o cristianismo era, então, a religião dos escravos, dos servos, das mulheres, dos enfermos, ou seja, dos desamparados do sistema social e político da época; como um rastilho de pólvoras, o evangelho incendiava as periferias, por causa da sua mensagem de um Deus amoroso, que ama, cuida, inclui, celebra, consola e ensina aos seus fiéis ações semelhantes de inclusão, afeto e solidariedade.

Numa sociedade em que prevalecia o modelo organizativo das tribos e clãs onde tudo e todos estavam submissos e pertenciam ao patriarca, tanto em Israel quanto em Roma; especialmente entre os romanos, que acreditavam na superioridade da nobreza sobre os plebeus, o apóstolo Paulo, num rasgo de lucidez e iluminado pelo Espírito Santo, anunciou que “não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28), quebrando a lógica da meritocracia e da superioridade étnica, de classes e de gênero. Isso era uma mensagem revolucionária para o sistema social da época.

Por fim, a Palavra de Deus conclama a todas e todos para que estejam engajados na luta pela justiça social, na defesa dos direitos dos pobres, dos trabalhadores, dos órfãos, da viúva, do estrangeiro. Não apenas o profeta Jeremias, na passagem citada em epígrafe neste texto, mas também o Salmista proclama “fazei justiça ao pobre e ao órfão; procedei retamente com o aflito e o desamparado” (Salmos 82:3); de forma semelhante o profeta Amós denuncia “vocês estão transformando o direito em amargura e atirando a justiça ao chão” (Amós 5:7).

Há aqueles que acham que a vida espiritual se dá dentro das igrejas, apenas com seus jejuns e campanhas, que adoração se resume aquele momento no louvor, com suas mãos levantadas e preces emotivas envolvas em choro. A esses o próprio Deus alerta: “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo?” (Isaías 58:6) e, ainda, “afastem de mim o som das suas canções e a música das suas liras. Em vez disso, corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene” (Amós 5:24).

Quem conhece a origem do 1º de Maio como Dia dos Trabalhadores sabe que essa data ficou marcada internacionalmente a partir de uma greve dos operários em 1886 na cidade de Chicago, que lutavam por direitos básicos, salários e condições dignas de trabalho e redução da jornada de trabalho, que chegava a 17 horas diárias, sendo duramente reprimidos pelos patrões e pela polícia, resultando com a prisão, morte e centenas de trabalhadores feridos. Sobre o assunto, a Bíblia registra um forte alerta aos patrões “eis que o salário que fraudulentamente retivestes aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos clama, e os clamores dos ceifeiros têm chegado aos ouvidos do Senhor dos exércitos” (Tiago 5:4).

Portanto, neste 1º de Maio e durante todos os demais dias não há outra alternativa para o cristão que não seja “abre a tua boca em favor dos que não podem se defender; sê o protetor dos direitos de todos os desamparados! Ergue a tua voz e julga com justiça, defende o pobre e o indigente” (Provérbios 31:8-9)

Fidelis Paixão, pr.
Belém – PA, 01 de Maio de 2019
Comunidade Cristã Abraça-me

segunda-feira, 29 de abril de 2019

O PT, OS EVANGÉLICOS E UM PROJETO DE NAÇÃO: Uma Mensagem aos participantes do I ENEPT


“E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que proveis qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Romanos 12:2


Por esses dias, viralizou uma imagem de Bolsonaro com apetrechos judaicos, acompanhado do primeiro-ministro de Israel, pretensamente orando com as mãos sobre o Muro das Lamentações. Não se vai entrar aqui na questão da territorialidade do local, nem sobre o alinhamento entre os governos de extrema direita, mas no poder simbólico da imagem para os evangélicos fundamentalistas de todo o mundo, em especial os brasileiros, que imediatamente qualificaram a cena como um “Ato Profético”. Para eles, seria sinal de “benção” para o país, para eles, isso representaria um alinhamento da política internacional brasileira com os “propósitos de Deus” para a Nação.

E aqui se afirma a necessidade de pensarmos em três tarefas necessárias para enfrentarmos nas próximas décadas, respondendo a questões sobre o papel de um cristão, evangélico, petista e de esquerda no Brasil; o papel do PT no Brasil em sua relação com os cristãos evangélicos; e o debate sobre os desafios dos cristãos, evangélicos, suas Igrejas e  Comunidades, engajados politicamente num projeto de Nação. São questões definidoras do tipo de ação que precisaremos pactuar durante o I Encontro Nacional de Evangélicos Petistas.

Inicialmente é necessário pontuar que qualquer análise que relativize, sob qualquer hipótese, a influência determinante dos evangélicos na vitória de Bolsonaro e na derrota de Haddad, não encontra base nos fatos numéricos nem nos argumentos qualitativos.

Numericamente falando, os eleitores evangélicos correspondem a 27% do total de eleitores brasileiros. Segundo as pesquisas de opinião, na reta final do 2º turno, Bolsonaro tinha 70% dos votos dos evangélicos. Retiradas as abstenções, brancos e nulos pontuados, isso representa um contingente total de 19.488.623 de votos evangélicos despejados nesse candidato, que representaria 33% do total dos seus votos obtidos. Sem essa expressiva votação evangélica, Bolsonaro não teria os 10.756.941 de votos a mais que Haddad e que lhe garantiram a vitória.

Qualitativamente falando, é fato conhecido a prática militante que os evangélicos possuem, no sentido de buscar arrebanhar outras pessoas para aderirem ao seu modo de vida, impulsionados pela crença no chamado individual de cada cristão a se tornar um líder e mensageiro da Palavra. Esse fato carece de uma análise mais acuidosa, apontando para um crescente papel da influência dos evangélicos não apenas no resultado eleitoral, mas no processo político brasileiro e, ao mesmo tempo, na identificação de matriz teológica e ideológica que lhes dão essa conformação subserviente aos sistemas dominantes através de um pensamento conservador de bases, de fato, anti-bíblicas.


Sobre o papel de um cristão, evangélico, petista e de esquerda no Brasil

“Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo?” Isaías 58:6

Os cristãos fundamentalistas costumam ressaltar como maior marca de sua vida cristã a “santidade”, esse é um conceito que vem sendo trabalhado diuturnamente, especialmente nas igrejas pentecostais e neopentecostais, oriundas de uma teologia de base puritana. A esse conceito, os cristãos com uma visão crítica da sociedade, do evangelho e do mundo, contrapõem o conceito de “justiça”. E por muito tempo se perdura o embate entre os “santos” e os “justos”, ambos assentados em suas razões e visões teológicas, com dificuldade de dialogar entre si e, cada um, em sua devida medida, com razão sobre parte do que creem e ensinam.

Da nossa parte, só é possível quebrar esse paradoxo estabelecido, se conseguirmos aliar nossa reflexão crítica e análise política com um estilo de vida engajado com os mais pobres, com as comunidades que sofrem, com os excluídos, motivados e partícipes do processo de transformação no dia-a-dia da vida das pessoas e do sistema social excludente brasileiro. Sermos apenas “porta-vozes” da razão, “anunciadores” de uma palavra descomprometida com uma práxis, não nos credencia a enfrentar o pesado jogo oculto que se estabeleceu para arrastar o evangelho e a igreja para os valores do presente século, facilmente identificados com o estilo de vida consumista, individualista e arrivista que o evangelho tem assumido no Brasil.

Nesse sentido, nosso papel é viver em comunidade o evangelho que cremos. Disso decorrerá uma dificuldade que tem se apresentado que é: como continuar convivendo num ambiente onde prolifera um discurso fascista, arrivista e oportunista, conforme estamos presenciando na maior parte das igrejas? A resposta certamente dependerá da disposição e ânimo individual, pois alguns vão preferir se juntar e criar ou se integrar a comunidades que vivem de forma mais coerente o evangelho da comunhão e da inclusão, já outros preferirão permanecer no ambiente onde foram criados, enfrentando internamente as resistências, e para esses a única alternativa será aprofundar um estilo de vida engajado não apenas discursivamente, mas numa práxis de fato transformadora.

Somos nós que diremos às nossas igrejas e comunidades qual é o sentido bíblico do “profético”, que atos proféticos não eram aqueles praticados pelos Reis e Sacerdotes, mas pelos Profetas que em geral eram comprometidos com a dor, o sofrimento e a injustiça sofrida pelo povo, enfrentando em sua maioria a fúria do sistema político e religioso oficial, a exemplo do profeta Jeremias e dos apóstolos de Jesus. Somos nós que disputaremos dentro de nossas comunidades o sentido bíblico do evangelho de Jesus Cristo como um evangelho de inclusão, de comunhão, de transformação de vidas e de estruturas sociais, econômicas, políticas, sociais e religiosas. Somos nós que confrontaremos líderes, pastores, sacerdotes, falsos profetas e religiosos que se aproveitam da ingenuidade, da boa-fé, da necessidade e das fragilidades das pessoas para extorquirem seus valores econômicos e culturais. Somos nós que anunciaremos a construção do Reino de Deus e nele estaremos engajados.

De forma semelhante, complementar e interativa, é nosso papel dizer ao partido qual deve ser sua postura no relacionamento com o segmento evangélico cristão, resguardando alguns princípios basilares que encontram fundamento bíblico, tais como a laicidade do Estado, o respeito às demais tradições e crenças, a liberdade de expressão, pensamento e confissão de fé, as políticas públicas de inclusão e construção de sociedades justas, equitativas, solidárias e sustentáveis, além, é claro, de agirmos profeticamente alertando, denunciando e chamando de volta ao caminho da justiça, quando o partido ou seus líderes se desviarem desses valores. Não somos portadores de ícones ou ídolos, temos referências em líderes, mas preservamos o princípio da autonomia humana, somos sabedores bíblicos que a humanidade caiu e, portanto, qualquer pessoa humana é suscetível a desvios de condutas, a erros, que devem ser tratados da forma como Jesus nos ensinou: com amor e chamado ao arrependimento.


Sobre o papel do PT no Brasil em sua relação com os cristãos evangélicos

“Ele defendeu a causa do pobre e do necessitado, e, assim, tudo corria bem. Não é isso que significa conhecer-me? Declara o Senhor.” Jeremias 22:16

Se o PT deverá manter sua definição pela organização dos evangélicos filiados ou simpatizantes em Núcleos, criando ou não uma estrutura nacional específica para lhe dar suporte, assim como a definição do seu papel, partindo do acúmulo já iniciado em 2015 e sistematizado no documento “Sobre o Núcleo de Evangélicos do PT”, essa será uma questão certamente tematizada e que precisará de respostas neste I ENEPT, sob o risco desse segmento da população seguir ao largo das propostas e mensagens do partido, aprofundando um fosso que gerou tanta rejeição nesse processo eleitoral.

Ao não priorizar a estruturação de uma instância que fortaleça a organicidade de seus filiados cristãos evangélicos, poderá manter ou aumentar esse fosso; por outro lado, a criação de uma instância desse tipo possibilita o risco do partido se perder do seu projeto laico ou se tornar num ambiente de disputas por conceitos e identidades religiosas, ou, ainda mais, se tornar refém de um segmento que poderá se valer de sentimento corporativista para apoderar-se de espaços e políticas públicas privilegiadas, cenários que não são desejáveis em nenhum sentido.

A melhor forma de encarar essa tarefa de promover o diálogo, a interação e exercitar uma benéfica influência mútua entre o partido e o público cristão evangélico é potencializar a organização interna desse público, partindo de princípios basilares e com propósito(s) bem definido(s). Os princípios já foram anunciados acima, dos quais se ressalta a laicidade do projeto partidário, sempre com a clareza de que ser laico não significa deixar de reconhecer a importância, respeitar e dialogar com os movimentos religiosos ou de cunho espiritual, protegendo o direito de livre organização e manifestação da fé em suas diferentes tradições; sobre o(s) propósito(s) de uma organização desse tipo, torna-se desejável que sua missão seja promover o diálogo, a formação política e a ampliação da base social comprometida com o projeto de Nação apresentado pelo partido.

Dessa forma, uma organização partidária deve fugir das tradicionais dinâmicas de disputas internas por espaço, geralmente promovidas pelos setores partidários organizados, e se propor a uma missão maior, ao cercar-se das diferentes tradições de fé no próprio segmento cristão evangélico, promover sínteses em interação com o projeto partidário, apontando rumos não para as organizações religiosas em si, mas rumos para a Nação, consolidando em políticas públicas, princípios e valores que compartilhamos de promoção da equidade, da justiça, da tolerância, enfim.

Não cabe, neste momento histórico, a timidez, o recuo ou o lamento. Podemos nos inspirar, inclusive, na forma como o movimento wesleyano tem influenciado durante décadas o Partido Trabalhista Inglês, inclusive como uma corrente de formação de opinião para as decisões partidárias. Quando líderes políticos evangélicos brasileiros apoiaram Lula ou o PT, estavam fazendo apenas uma aliança tática, muitos membros da direção partidária se iludiram com isso, era apenas uma questão conjuntural, pois o fermento ideológico, anti-esquerda, pró-american way of life, já estava levedando a massa desde décadas anteriores. Daí a importância e a necessidade de organização de uma instância partidária dos cristãos evangélicos no partido.


Os desafios dos cristãos, evangélicos, suas Igrejas e Comunidades, engajados politicamente num projeto de Nação

“Assim diz Yahweh, o Eterno e Soberano Deus: Ai dos pastores de Israel que só cuidam de si mesmos! Porventura a missão dos pastores não é zelar pelo rebanho?  Entretanto, comeis a coalhada e vos vestis da lã; e ainda matais os melhores e mais robustos animais, mas desprezais o cuidado do rebanho.  Não fortalecestes a ovelha fraca, não curastes a doente, não enfaixastes a ferida, não trouxestes de volta as desgarradas nem buscastes as perdidas; pelo contrário, tendes dominado sobre elas com tirania e brutalidade.” Ezequiel 34:2b-4

No decorrer da história humana, homens e mulheres imbuídos de uma mensagem profética, de um profundo amor pelos seus semelhantes e comprometidos com o evangelho do Reino de Deus, se tornaram referência em processos de transformação de suas comunidades e Nações, tais como John Wesley e sua geração de discípulos que lutou arduamente pelo fim da escravidão, das rinhas de galos, das jogatinas públicas, que alfabetizaram crianças e seus pais operários naquilo que chamaram de Escola Bíblica Dominical e que posteriormente foi desvirtuado pela institucionalidade religiosa no modelo atual; como Marthin Luther King, pastor batista e maior referência da luta pelos direitos civis nos tempos modernos, que sacudiu sua Nação contra o apartheid; como Cornelia “Corrie” Ten Boom, da Igreja Reformada Holandesa e que foi participante ativa da luta contra o nazismo, quando muitos líderes cristãos se calavam ou aderiam às atrocidades do regime hitlerista; enfim, tantos outros podem ser citados, desde São Francisco de Assis, passando por Wilberforce, Desmond Tutu e uma infinidade de referências, inclusive no Brasil, que não se curvaram aos ídolos do presente século, mas mantiveram a coerência e integralidade entre sua fé e sua vida cidadã.

De forma semelhante podemos nos referir a comunidades de fé que expressaram uma vivência integral daquilo que criam, organizando trabalhadores, camponeses, fortalecendo lutas sociais por seus direitos, denunciando profeticamente estruturas de opressão, tais como os Morávios e sua integralidade de fé; os Anabatistas e sua arraigada crença na separação entre Igreja e Estado;  os Valdenses e Huguenotes e sua defesa dos camponeses contra a tirania dos Príncipes e do Estado; os incontáveis membros, lideranças e igrejas brasileiras que resistiram, sob perseguição, aos anos de chumbo da Ditadura Militar, dentre os quais podemos nos referir aos que se envolveram na construção da Confederação Evangélica do Brasil (CEB) e nas Comunidades Eclesiais de Base, entre tantos outros; enfim, não nos faltam exemplos de como a mensagem bíblica contribuiu para a construção de um mundo melhor. E é desses exemplos que nossas Comunidades de Fé atuais devem beber.

É bom relembrarmos que Deus não tinha um projeto monárquico para o seu povo, que Deus não queria Reis nem hierarquia sobre o seu povo, que seu modelo de governo era local e comunitário, baseado nos seus princípios e na sabedoria popular que se revelava no conselho de anciões. O apelo ao Direito divino para que tronos e linhagens se estabelecessem já foi um fenômeno posterior, recurso da ideologia para controle do povo e perversão dos propósitos de Deus. 

Não cabe ao partido dizer o que uma Comunidade de Fé deve ser, isso é nossa tarefa como cristãos engajados, mas cabe ao Partido possibilitar sim essa reflexão entre seus membros, disponibilizar estrutura para formação política, cabendo a essas Comunidades de Fé se tornarem parte do Projeto de Nação, num movimento de influência recíproca baseadas nos valores do Reino de Deus.


Como entender nossa tarefa nesse quadro de disputa cultural e ideológica

“Porquanto não há nada oculto que não venha a ser revelado, e nada escondido que não venha a ser conhecido e trazido à luz.” Lucas 8:17

Não deveria ter nos assustado tanto o fenômeno conservador que se manifestou até ao ponto do fascismo nas igrejas evangélicas nesses últimos tempos, diante da carga ideológica que foi lançada sobre suas costas durante tantas décadas, inicialmente pelo protestantismo oficial norte-americano a serviço da Guerra Fria e, num segundo momento, pelo fenômeno também originado naquele país do neopentecostalismo, dos televangelistas e da teologia da prosperidade, a partir dos anos 80.

Quem não se lembra de Jimmy Swaggart chorando no seu bilionário programa televisivo, durante o governo Reagan, relatando o “sonho profético, dado por Deus em forma de visão”, em que via campos de trigos floridos dos EUA sendo devastados por armas nucleares russas, no que ele denominava de Armagedon em iminência de acontecer?! A membresia das Assembleias de Deus foi forjada debaixo desse jugo teológico-ideológico, enquanto os EUA invadiam países, matavam pessoas, perseguiam lideranças de esquerda, justificados por uma visão teleológica a serviço do mercado.

Não muito tempo depois, Swaggart foi desmascarado em seu discurso de falsa moralidade, exatamente como tem acontecido no Brasil com uma quantidade incontável de arautos da falsa moralidade pública e ética, exatamente porque esse é o papel da ideologia, mascarar. Mas sabemos a verdade bíblica de que nada que está oculto permanecerá sem ser revelado.

É ingenuidade desconhecer o papel da ideologia para mascarar e ocultar interesses de poder, de opressão de classes e de acúmulo de riquezas, sob o manto da liberdade, da legalidade, da religiosidade, forjando uma realidade virtual bem ao gosto dos irmãos Wachowski (Matrix), cumprindo bem o papel de manutenção de poder das classes dominantes. Os profetas bíblicos bem sabiam disso, como Ezequiel que denunciou a abominação cometida pelos sacerdotes no Templo às escondidas do povo.  

Nossa tarefa não é fácil nem pequena. Quantos de nós, desde crianças, não ouvimos em nossas Igrejas as histórias dos valorosos pregadores da Palavra de Deus, geralmente norte-americanos, perseguidos pelos atrozes ateístas da Rússia Comunista e seus aliados? Quantos de nós não ouvimos que deveríamos nos “separar do mundo”, o que gerou um estilo de vida arraigado na separação do conjunto da cidade, da escola e das organizações “seculares” e de um cotidiano alienado que privilegiava somente aquilo que era considerado “espiritual”, geralmente associado a atividades interna corporis da igreja? Quantos de nós não aprendeu na infância a musiquinha que dizia que este mundo iria pegar fogo e nós iríamos morar no céu, fomentando uma atitude utilitária e de descarte baseada na distinção entre o ambiente natural e o cultural, com uma relação baseada na dominação tirânica e no controle humano sobre os animais e a fauna? Quantos de nós não crescemos aprendendo que Abraão era um homem “abençoado” por ter muitos bens, animais e tesouros, ao passo que a pobreza era sinônimo de ausência de Deus e de bênçãos divinas? Quantos de nós não cresceu tendo como heróis Daniel Boone e sua imposição cultural sobre os “aborígenes”, ou do Super Man, da Mulher Maravilha, do Capitão América, como símbolos da bondade e da justiça automaticamente associados ao estilo de vida norte-americano?

O que não nos contaram é que todo esse quadro ‘matrixiano’ era minuciosamente planejado nas pranchetas das Corporações que lucraram com a Guerra Fria e continuam lucrando com a máquina de guerra,  numa geopolítica em que a nós é reservado o papel apenas colônia, quintal, área de influência para fornecimento de matéria-prima barata! E é sobre essa herança cultural que estamos lutando nos dias atuais.

É a partir da compreensão desse cenário, dessa herança, que devemos traçar as linhas e estratégias de nossas ações de formação política como elemento-chave para a disputa ideológica e a consolidação dos valores do Reino de Deus que se contrapõem à máquina beligerante de guerra, ao consumismo como critério para a felicidade, ao dualismo que separa a cultura do natural e o humano do sobrenatural, ao arrivismo como meta de vida, ao individualismo competitivo que fundamenta uma vida social artificial em que a solidariedade se perde em momentos formais de alívio de uma consciência pesada. É somente a partir do nosso compromisso com o Evangelho da Graça, com o Deus do Amor, da Misericórdia e da Justiça, que seremos iluminados para essa missão que nos propomos a consolidar.

Temos o desafio de inaugurar imediatamente um debate sobre métodos para estudo popular e coletivo da Bíblia, podendo partir do método “ver-julgar-agir”, incluir temáticas atuais e desafiadoras, tais como uma visão fundamentada biblicamente sobre ecologia e meio ambiente, sobre protagonismo juvenil e feminino, sobre direitos humanos, racismo e afirmação dos direitos das minorias, além das questões já assentadas sobre economia, trabalho digno e justiça equitativa, entre tantos outros. 

Cabe-nos, portanto, fazer o bom combate da fé alicerçada na Palavra do Verbo que se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, enfrentar a disputa ideológica denunciando esquemas que geram a morte e profetizando vida sobre o Vale de ossos secos no qual o Brasil está sendo transformado.  

“Fazer justiça e julgar com retidão é mais aceitável ao Senhor do que oferecer-lhe sacrifício.” Provérbios 21:3


São Paulo, 5 e 6 de abril de 2019

Esse texto-base visa estimular a reflexão e foi apresentado no I ENEPT - Encontro Nacional de Evangélicos Petistas, subscrito pelas pessoas abaixo. Mais informações através do e-mail fidelispaixao@yahoo.com.br


Assinam:
Fidelis Paixão (Pará)
Carlos Paixão (Maranhão)
Luís Sabanay (Santa Catarina)
José Barbosa Jr. (Minas Gerais)
Neivia Lima (Bahia)

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

HOMENS E MULHERES CONECTADOS COM O PROPÓSITO DE DEUS PARA SUA GERAÇÃO



Todos nós queremos ser úteis, usados, bênção nas mãos de Deus. Isso é um desafio. Porém, conseguiremos isso fazendo do nosso jeito ou podemos aprender com personagens da Bíblia? Atos 13:36 diz que Davi “serviu ao propósito de Deus em sua geração”. Como entender essa expressão?

Muito falamos sobre vários aspectos da vida daquele que foi o homem “segundo o coração de Deus”, sobre seu pecado, seu arrependimento, sua fé, suas conquistas na guerra, mas quero chamar atenção para algumas características de Davi que Deus quer ver reproduzidas em nós para que também sejamos homens e mulheres segundo o seu coração e que também sejamos úteis à nossa própria geração.

Davi foi útil porque ele se dispôs a cumprir o propósito de Deus para a sua geração, para o seu tempo. Davi estava conectado com esses propósitos, ele não estava aprisionado a tradições do passado ou a religiosidade formal, por isso muitas de suas atitudes escandalizaram as pessoas de sua época, como na ocasião em que ele dançou compulsivamente de alegria celebrando o retorno da Arca da Aliança para Israel (II Samuel 6:16) ou quando ele pegou os pães sagrados do templo para se alimentar em batalha (I Samuel 21:1-6).

Para sermos iguais a Davi e nos tornarmos relevantes aos propósitos de Deus para nossa geração, além de não estarmos presos a tradições, precisamos desenvolver algumas características básicas:

1.      Entenda que você é a manifestação da glória de Deus aqui no lugar onde você vive (Colossenses 1:27). Não espere que a “glória” se manifeste do céu, que desça como nuvem ou que “encha a casa”, pois você é essa manifestação através das suas atitudes. Então desenvolver atitudes que expressem os valores do Reino de Deus é a melhor forma de estar conectado com os propósitos do Criador para a sua geração.

2.      Não viva para si próprio, mas tome para o si propósito para o qual Deus te gerou (Gálatas. 2:20a) Uma das questões mais inquietantes para nós, humanos, é o sentido da vida. E o melhor lugar para encontrar esse sentido é buscando em Deus e na sua Palavra, identificando os sinais em sua própria vida. E sabe quais são os melhores sinais que Ele deixou em cada um de nós? Os dons. Sim, cada um de nós possui dons, talentos, habilidades e ao identifica-las podemos desenvolver uma trajetória de vida dedicada ao propósito para o qual fomos criados.

3.      Você precisa se despir de todos os preconceitos (Gálatas 3:26-28; Colossenses 3:11). Existem dezenas de preconceitos que expressamos, que nos limitam, primeiramente porque somos frutos de uma cultura imperfeita, comprometida com o sistema de um mundo baseado no interesse, na exploração de uns sobre outros e no acumulo material. Enxergar esses preconceitos em nós mesmos e atuar continuamente para debela-los é uma das melhores formas de nos conectarmos com o propósito de Deus para a nossa geração, pois os preconceitos são desenvolvidos socialmente e geralmente passam de uma geração para outra. Aqui quero utilizar três tipos de preconceitos que paralisaram a Missão da Igreja, calaram a sua voz profética e por isso impediram que ele fosse uma expressão plena da glória e do propósito do Criador:

v  Preconceito contra as mulheres. Por causa do machismo durante séculos as mulheres tiveram papel secundário na Igreja e foram impedidas de viver plenamente seu chamado e expressar seus dons. Porém, desde Joel 2:28 até Gálatas 3:28, passando por Atos 2:2, entre outras passagens, a Palavra de Deus deixa claro que somos todos iguais diante de Deus e que todos recebemos o Espírito Santo, homens e mulheres.

v  Preconceito contra os negros, que foram escravizados, e a igreja perdeu a chance de ser a principal voz contra a escravidão, já que Gálatas e Colossenses dizem que todos nós somos iguais e livres diante de Deus e Gênesis 1 diz que Deus deu do seu espírito a todo ser humano criado. Não existe justificativa bíblica ou ética para o sistema de escravidão que a cultura ocidental desenvolveu e que foi apoiado pela maior parte da igreja cristã.

v  Falta de aliança com a Criação. Em Gênesis 9:9 a Bíblia fala da aliança de Deus com os animais e com tudo que foi criado e em Colossenses 1:20 diz que Jesus através de seu sangue derramado na cruz restaura todas as coisas aos propósitos para os quais foram criadas, tanto as que estão nos céus, quanto as que estão na terra. Ecologia e ambientalismo não não deveria ser "coisa" de ong ou de universidade, mas sim a expressão do compromisso de todo cristão com a obra do Criador.



4.      Ter aliança com as gerações (Salmo 145:4) não significa apenas que Deus é o mesmo ontem, hoje e sempre, mas sim que cada geração é responsável por ensinar quem Deus é para a geração seguinte e também que Deus se revela com mais intimidade e profundidade a cada geração e é nosso papel estar conectado com essa revelação, sendo instrumento de sua vontade.
     
Buscar sempre conhecer a vontade de Deus, estar conectado com seu propósito, sem estar preso a armadilhas do passado, a tradições e a religiosidade formal, significa “renovação de mente”, ter a “mente de Cristo” (Romanos 12:2; Filipenses 2:5 e Efésios 4:23) e esse é o principal desafio para aqueles que querem viver plenamente o propósito para o qual foram criados.


Belém-PA, novembro de 2018
Pr. Fidelis Paixão



sexta-feira, 9 de novembro de 2018

OS POBRES: NÓS SEMPRE OS TEREMOS CONOSCO? Parte II


Quando nos referimos aos pobres estamos utilizando a mesma compreensão que a Bíblia fala sobre o assunto, ou reproduzimos o que aprendemos num evangelho já contaminado com valores mundanos?



A questão dos pobres é um tema central na Bíblia e como cristãos é nosso dever conhecer. A missão da igreja é ministrar aos pobres, pois o Reino de Deus pertence a eles, segundo Jesus afirmou em Lucas 6:20. Quando perguntado se ele era o Cristo que haveria de vir, ele respondeu que o evangelho estava sendo proclamado entre os pobres. E isso era uma prova de que ele era o Cristo. Este texto é continuidade do anterior (clique aqui), quando comecei a discorrer sobre o tema e aqui darei sequência, visando aperfeiçoar aqueles que fazem parte do Corpo de Cristo, para o bom combate.



Compreender esse tema e sua relação com a nossa missão como cristãos e como igreja não é apenas importante, mas é vital, pois esta geração tem experimentado um forte mover de intimidade através do louvor que tem transformado muitas vidas e manifestado a Graça de Deus a todos. Porém, se esta geração se deter nesse mover, corre o risco de ouvir do próprio Deus as palavras ditas através do profeta “Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos, porque não ouvirei as melodias das tuas liras. Antes, corra o juízo como as águas; e a justiça, como ribeiro perene” (Amós 5:23-24). Um louvor e uma adoração desconectados de ações que manifestem a justiça, a graça, a misericórdia e o amor de Deus, se tornam inaceitáveis para Ele.



Na primeira década deste século, Beth Wood e Maurício Cunha publicaram um belíssimo livro, infelizmente pouco conhecido no meio evangélico, intitulado “O Reino entre nós: transformação de comunidade pelo evangelho integral” (Editora Ultimato) e o texto abaixo é uma reprodução parafraseada ou literal de trechos do capítulo 2 “O coração de Deus para os pobres”. Vou evitar aspas, mas fica aqui registrada a referência, recomendo a leitura do livro para quem deseja se aprofundar sobre o tema.



A tradução bíblica na língua portuguesa para a palavra “pobre” é bastante limitada. Pois nos escritos originais do hebraico e do grego, pelo menos sete palavras diferentes se referiam ao mesmo tipo de fenômeno, com perspectivas ou características diferentes, por isso é importante conhece-las, para saber exatamente a que se referia o autor bíblico.



No Antigo Testamento os vocábulos “ani”, “ebyon”, “rash”, “micken”, “chelkah”, “raeb” e “dal, foram traduzidos como “pobre”. Vamos compreender a origem e o significado original de cada um deles.



“ani”



A palavra mais comum no Velho Testamento para falar dos pobres é ani, encontrada 80 vezes. Esses são os que sofrem aflições e opressão. São vítimas de forças, decisões externas e circunstâncias injustas. Isaías se referiu a eles em 3:14 “O Senhor entra em juízo contra os anciãos do seu povo e contra os seus príncipes. Vós sois os que consumistes esta vinha; o que roubastes do ani está em vossa casa”. 


Nesta passagem podemos ver não só a vitimização do ani, mas também o juízo de Deus contra aqueles que os oprimem. Deus odeia a injustiça e age contra os opressores, segundo o profeta. Nós temos uma responsabilidade diante Dele, de identificar as raízes da opressão e de promover a justiça.  




“ebyon”



No propósito original de Deus para sua criação, não haveria pobres na terra. Foi o pecado e a desobediência que geraram a pobreza através da escassez e de uma estrutura socioeconômica baseados no acúmulo, na avareza e na exploração de uns sobre os outros.



Mas ao separar um povo para torna-lo referência sobre as demais Nações, Deus lhes apresentou um sistema social que impediria esse tipo de iniquidade no seu meio. Em Levítico 15:4 ele diz “... para que entre ti não haja ebyon; pois o Senhor teu Deus te abençoará abundantemente na terra que te dá por herança, para possuí-la, se apenas ouvires atentamente a voz do Senhor teu  Deus para cuidares em cumprir todos estes mandamentos que hoje te ordeno.”



No entanto, por conhecer o coração pecaminoso do homem, Deus alerta, no versículo 7, sobre a possibilidade da existência de pobres na terra: “Quando entre ti houver algum ebyon de teus irmãos, em alguma das tuas cidades, na tua terra que o Senhor teu Deus te dá, não endurecerás o teu coração, nem fecharás a tua mão a teu irmão pobre; antes lhe abrirás de todo a tua mão e lhe emprestarás o que lhe falta, quanto baste para a sua necessidade”.



Por fim, nos versículos seguintes, Deus alerta a seu povo, que por causa da desobediência e de não seguirem suas leis, a pobreza se tornaria inevitável, prescrevendo quais seriam as atitudes corretas a serem adotadas diante do fato: “Livremente lhe darás, e não seja maligno o teu coração, quando lho deres, pois por isso te abençoará o Senhor teu Deus em toda a tua obra, e em tudo que empreenderes. Pois nunca deixará de haver ebyon na terra: por isso eu te ordeno: Livremente abrirás a tua mão para o teu irmão, para o necessitado, para o pobre na terra.”



Quando Jesus disse em Mateus 26:11 que sempre haveria pobres na terra, ele estava citando esta passagem e não promovendo um fatalismo a respeito dos pobres. Dentro desta realidade, temos a responsabilidade de guardar os nossos corações sempre abertos para os ebyon de Deus. Originalmente, ebyon é aquele que não consegue viver independente dos outros, por causa de sua necessidade, conforme expressa o profeta: “Levanta o pobre do pó e desde o monturo, exalta o ebyon, para o fazer assentar entre os príncipes, para o fazer herdar o trono da glória...” (I Samuel 2:8).



“rash”



A palavra rash se refere aos pobres por espoliação. Em outras palavras são os que se tornaram pobres porque alguém com mais poder tirou o pouco que tinham.



O melhor exemplo se encontra em numa história contada pelo profeta Natã: “Havia numa cidade dois homens, um rico e outro rash. Tinha o rico ovelhas e gado em grande número; mas o rash não tinha cousa nenhuma, senão uma cordeirinha que comprara e criara, e que em sua casa crescera, junto com seus filhos; comia do seu bocado e do seu copo bebia; dormia nos seus braços, e a tinha com filha. Vindo um viajante visitar o homem rico, não quis ele tomar das suas ovelhas e do gado para dar de comer ao viajante, mas tomou a cordeirinha do rash e a preparou para o homem que lhe havia chegado. Então o furor de Davi se acendeu sobremaneira contra aquele homem, e disse a Natã: Tão certo como vive o Senhor, o homem que fez isso deve ser morto” (II Samuel 12:1-5). 



Deus odeia a injustiça. Ele espera que o povo dEle se coloque ao lado dos injustiçados. Isto vai requer de nós ações radicais na promoção da justiça, ações estas que muitas vezes não estamos acostumados a associar à tarefa da Igreja.



Em nosso meio, encontramos exemplos de rash entre os povos indígenas, comunidades tradicionais e alguns trabalhadores sem-terra, entre outros.



“micken”


A grande maioria que ouvimos falar dos pobres ou da pobreza nas igrejas, é associando-os com a preguiça e a indolência. Porém, não é essa a ênfase dada pela Palavra de Deus. Micken é a única palavra hebraica que faz esse tipo de associação e aparece em Provérbios como um alerta a um tipo de comportamento que não está condizente com os propósitos do Criador: “Um pouco para dormir, um pouco para encruzar os braços em repouso, assim sobrevirá a tua pobreza como um ladrão, e a tua micken como um homem armado” Provérbios 24:34. E esse tipo de comportamento não deve ser utilizado como uma desculpa para fecharmos o nosso coração, Deus não nos deu essa opção.



“dal”


O dal é o pobre frágil. A raiz da palavra nos dá o sentido de algo que está pendurado por um fio, em perigo de cair. Deus sempre fortalece os fracos e vai julgar os que pisam sobre os dal, conforme nos alertou através do profeta Amós: “...portanto, visto que pisais o dal e dele exigis tributo de trigo, não habitareis nas casa de pedras lavradas que tendes edificado; nem bebereis do vinho das vidas desejáveis que tendes plantado” (Amós 5:11).


“raeb”



O raeb é, talvez, o pobre que temos mais facilidade em servir. O raeb é o faminto; o que simplesmente não tem o que comer independente do motivo. A Palavra nos ensina que devemos dar o nosso pão ao raeb: “Sendo, pois, o homem justo e fazendo juízo e justiça, não comendo carne sacrificada nos altos, nem levantando os olhos para os ídolos da casa de Israel, não roubando, dando o seu pão ao raeb” (Ezequiel 18: 5-7).



“chelkah”


Chelkah vem de uma raiz que quer dizer “escuro” ou “infeliz” e se refere ao pobre infeliz ou deprimido na mente. Qual seria o nosso agir com os que não conseguem enfrentar a vida, os que estão de luto, os lidando com doença mental?  Deus é o defensor do chelkah. Ele se revela como Torre Forte na vida deles. Devemos nos juntar aos chelkah, trazendo esperança, força e proteção: “Tu, porém, o tens visto, porque atentas aos trabalhos e à dor, para que os possas tomar em tuas mãos. A ti se entrega o chelkah; tu tens sido o defensor do órfão” (Salmos 10:14).



No Novo Testamento, são poucas as palavras gregas traduzidas como pobre ou necessitado. Em Lucas 21:2-4 encontramos a viúva “pobre” que Jesus apresentou como exemplo de generosidade. É interessante notar que três palavras diferentes são usadas para falar da mesma viúva: “Viu também certa viúva mbuwkah lançar ali duas pequenas moedas; e disse: Verdadeiramente, vos digo que esta viúva ptokos deu mais do que todos. Porque todos estes deram como oferta daquilo que lhes sobrava; esta, porém, da sua husterema deu tudo o que possuía, todo o seu sustento.”



Nessa passagem podemos notar que as três palavras diferentes no grego se referem à mesma pessoa, a viúva, em sua pobreza. Isso nos ajuda a constatar que as palavras gregas não são diferenciadas da mesma forma que as palavras hebraicas. Vamos estudar a palavra mais comum e mais essencial para o nosso entendimento do coração de Deus para os pobres.



“ptokos”



O ptokos é o pobre que, encontrando-se apavorado pelas circunstâncias adversas da vida, procurou um defensor em quem pode confiar e depender, e o achou em Deus. O ptokos se refere ao necessitado que não tem segurança em si mesmo e vive dependendo de outros.



A palavra ptokos se refere primeiro ao fisicamente necessitado e se estende aos necessitados “em espírito”. O ptokos é principalmente o que não tem comida e as outras necessidades básicas supridas.  A este, Jesus foi enviado para proclamar as boas novas do evangelho que promete transformar as suas vidas em todos os níveis, levando-os ao Reino de Deus.  São estes os bem-aventurados; não porque a pobreza faz parte do plano de Deus, mas porque podem se posicionar na completa dependência de Deus, o que certamente é o melhor lugar no mundo.  São esses “escondidos” em Deus que têm a oportunidade de entender o Reino de Deus mais profundamente e então servir de exemplo para nós. São esses que providenciarão encontros com Jesus nas nossas vidas.



Lemos em Mateus 5:3: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus”. Aí encontramos os “ptokos em espírito”. Com a nossa definição é mais fácil entender essa expressão. Existe a possibilidade de alguns que têm conseguido suprir suas necessidades básicas pela própria força, entrar neste relacionamento de dependência em Deus. É mais difícil, mas é possível. É mais difícil, porque o homem sempre tende à auto-suficiência, a depender da sua própria força, da sua inteligência, da sabedoria humana. É possível, porque Deus oferece ao rico esta possibilidade de entender que ao final ele necessita de Deus para tudo. O pobre, que olhando para a sua situação já percebe sua necessidade, tem mais facilidade de entrar no Reino de Deus. O homem que “tem tudo” em termos do mundo sempre terá mais dificuldade em seguir a Jesus, não porque o convite estendido a ele é diferente, mas porque o coração do homem é enganoso e tão facilmente nos leva a acreditar que podemos viver na nossa própria força.



Finalizo esse texto ressaltando a necessidade e urgência de compreendermos a questão do pobre na Bíblia e esse estudo linguístico realizado por Bete Wood e Mauricio Cunha nos possibilitou ampliar largamente a compreensão sobre o tema. Numa próxima oportunidade espero refletir a justiça de Deus e seus reflexos na vida cristã.




Belém – PA, 09 de novembro de 2018

Fidelis Paixão – advogado, educador, pastor

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